quarta-feira, 5 de março de 2008

Filme Fantasia

O filme Fantasia representa para mim, o máximo da associação de desenho animado e musica.

Mas, não como é o comum de uma música ser feita para um desenho. Fácil. É um desenho feito para musicas já existentes, conhecidas e de grandes mestres. Assisti Fantasia na minha mocidade, na geração seguinte de meus filhos e já na geração dos netos. Nenhum filme me marcou tanto.

Se a gente pensar que o filme foi feito em 1940 com os recursos técnicos da época, Walt Disney se superou. A imaginação aliada à capacidade (acho que até manual) deu essa obra prima. Dificil de encontrar em DVD mas procurem.Acabarão achando. Depois, vejam a versão Fantasia 2000 já com todos os recursos de computação. E me digam o que acham.
Ficaria horas comentando os detalhes do filme, mas deixo outra obra prima que é um artigo de ninguem menos que Monteiro Lobato publicado na Folha em 1948:

Fantasia deixou-me estarrecido. É a expressão. Estarrecido. E embaraçado para definir. Tudo tão novo, tudo tão inédito, que o vocabulário crítico usual torna-se impotente, Disney é um tipo novo de gênio e sua arte é uma arte total e absolutamente nova, jamais prevista nem pelas mais delirantes imaginações. Até o aparecimento de Disney, o cinema não passava de uma conjugação do teatro com a fotografia. Era uma representação teatral fotografada em todos os seus movimentos, cores e sons. Disney criou a grande coisa nova; a conjugação da fotografia com a imaginação.

O desenho genial de Disney permite que todas as criações da imaginação possam ser fotografadas e projetadas com a riqueza dos sonhos. Uma arte, pois, absolutamente nova e jamais prevista.

Tudo quanto é absolutamente novo desnorteia a rotina do nosso cérebro. Ficamos sem palavras para julgar. O vocabulário humano é um conjunto de convenções que refletem experiências muito repetidas. Quando uma experiência sensorial totalmente nova nos defronta, o velho vocabulário existente mostra-se necessariamente inadequado.

Diante da dança dos cogumelos chineses, das manobras da fada do orvalho, da tradução em desenho do pensamento musical dum Stravinski, ou dum Beethoven, da prodigiosa sátira à “Dança das Horas” de Ponchielli, do jogo dos dois extremos, como a bolha e o elefante, da disneyzação da família de Pégaso e do clã dos centauros, a atitude do espectador torna-se cômica. Temos que abrir a boca e conservar-nos mudos. Tudo quanto tentarmos dizer com as convencionais e velhas palavras da admiração, torna-se grotesco.

Um meu vizinho de poltrona tentou comentar o anjinho que cerrou as cortinas quando o casal de centauros amorosos se recolheu para o amor – o anjinho de costas cujo traseirinho nu foi virando coração – e tive de pedir-lhe silêncio.

Não fale. Falar as velhas palavras diante de tal mimo de criação artística é quebrar grosseiramente algo lindo, é furar com ponta de prego enferrujado uma irisada bolha de sabão.

Não fale. Não comente. Não conspurque. Limite-se a extasiar-se. Diante de “disnéias” como o do elefante atrapalhado com a bolha, do anjinho que transforma nádegas em coração, da peixinha que se mantém de rosto impassível de tão consciente da prodigiosa beleza da sua dança aquática, do enlace de caudas quando a mimosa centaura se aninha no peito do seu centauro amoroso, falar é profanar.

Walt Disney é a suprema compensação dos horrores que a guerra está trazendo para a humanidade. Há a guerra, sim. Há o bombardeio aéreo às cegas. Há o estraçoamento dos inocentes. Há o inferno. Mas a humanidade salva-se produzindo neste momento trágico a altíssima compensação de um Disney, o Grande Criador.

Ah, se fosse possível um novo fiat! Recriar o mundo! Com o material que a natureza nos fornece produzir um mundo novo, formas novas de vida – e se fosse Walt Disney o encarregado da transmutação! Que suprema, que prodigiosamente bela uma nova Criação Cósmica assinada pela mais alta expressão do gênio humano – Walt Disney!

Inania verba... Que impotência a nossa ao tentar dizer de Disney com essa coisa grosseira que é a palavra escrita!

Nós, gente de hoje, somos trogloditas da Pedra Lascada diante dessa criatura que nos entremostra maravilhas dum ainda remoto futuro.

Disney, Disney, os trogloditas te saúdam.”

Monteiro Lobato
Folha da Noite 12/07/1948

Fantasia, de 1940, foi o terceiro desenho de longa metragem de Walt Disney depois de Branca de Neve e os Sete Anões e Pinóquio.

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